O outro lado
Sempre leio textos de mulheres solteiras que reclamam dos desconfortos sociais, sentimentais que a situação acarreta. O seriado Sex and the City é sobre isso. Os sites, as revistas que eu mais gosto falam disso. Falam também da não-obrigação de se encontrar um príncipe encantado, falam da tal mulher moderna. E eu que tenho um gosto musical interessante, leio bons livros, sei perfeitamente quem é Iggy Pop e Ronaldo Fraga me sinto por fora, como se faltasse algo que eu não vou viver. Explico: eu encontrei O cara. Do jeito que eu sonhei, pedi, imaginei. Com os defeitos que eu preciso. Amor à trilionésima vista, com história de dar livro e pedido de casamento à meia noite, com direito a um bom espumante, Bahia e um céu até ridículo de tão bonito. Sorte? Claro. Mas não se pode ter tudo...
Algumas das minha melhores amigas foram pra Europa fazer um curso de cinema. Eu não. Fiquei no Brasil batalhando um espaço ao sol e fazendo pratos especiais domingo à noite, de ressaca, com a cara-metade abobalhado no quarto, em frente ao Playstation 2 (a minha geração não parou de jogar video game). Um delas já me deu de presente de Natal um avental, um creme pras mãos e um guia turístico “pra ver se sai da toca”. Meu consolo foi que de Barcelona ela disse pra eu investir mesmo, porque meu namorado “é tudo de bom”. Não quero que pareça um sacrifício, é uma escolha e estou satisfeita com a minha, mas também tem seu lado ruim.
Todos os meus amigos reclamam quando eu falo que não posso sair porque meu enteado está com a gente. Sim, eu sou madrasta e amo o filho do meu namorado – nem dá pra explicar. Ele não é meu filho, mas eu preciso fazer algumas concessões em função do bem estar de todos. Claro, às vezes eu deixo os dois sozinhos e vou beber vinho na casa de uma amiga, vou almoçar com a minha mãe, vou fazer outras coisas, mas às vezes quero e preciso ficar. Tem muita gente que não entende isso e briga comigo, amigos fofos que me puxam pra realidade o tempo todo.
Eu não tenho e não quero ter mais romances. Nada de frio na barriga, nada de esperar telefonar, checar mil vezes o e-mail, nada da gostosa ansiedade do início da paixão. Tenho outras sensações, mas o início passou. No meu caso até foi bom passar, porque como caí de cama, com uma febre que não cedia durante cinco dias (minha mãe conta isso às gargalhadas). É... No meu caso foi bom passar.
Os familiares cobram. Cobram filhos, cobram casamento porque “essa coisa de morar junto é muito confusa”. Eu não fico de camisola escutando música o dia todo, não mais. Não saio pela casa cantando Madonna aos berros, nem Ramones e não faço mais nenhum dueto-que-vizinho-ouve.
Minha gata gosta mais de outra pessoa do que de mim e quem tem gatos sabe o que isso significa. Madonna Ramone, a persa azul, passa por cima da minha barriga com desdém na cama e deita no peito ao lado, ronronando.

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