
Por Nanu*
O mundo dos normais e saudáveis
Pois veja como são as coisas: a essa altura está você ai, desanimado, pensando seriamente em mudar de time, olhando para os caras do vôlei na praia com outros olhos. Não é preciso entrar em pânico, existem mulheres bacanas, relacionamentos saudáveis, existe um mundo ensolarado onde dinheiro serve para comprar cerveja, não para ser reverenciado.
E como saber a diferença entre as mulheres? Ora, quando eu digo que sou um poço de sabedoria e que vou dar um jeito nessa sua vida esquisita, sei do que estou falando. Agora mesmo estou aqui para te ensinar a escolher bem sua mulher.
Não existe mistério, só existe calma. Só existe o hoje. Não se avalia uma pessoa por seu passado, nem se especula sobre seu futuro, só existe mesmo o aqui e agora. É uma mescla de coisas aparentemente pequenas que te revela todo um mundo interno, a riqueza do interior de uma alma.
As pessoas normais são leves, sabem rir de si mesmas e são incapazes do deboche gratuito e grosseiro, uma mulher bacana tem classe. “ Classe” não se compra, logo, não vá achando que essa coisinha esquisita, analfabeta funcional, com calça mostrando pêlos púbicos, vai se transformar em uma Senhora sob seus cuidados. Mulher vulgar só serve mesmo pro resfolego, amigo. Não tem jeito. Classe e elegância não estão vinculados a berço, a cargo, à aparência. Tudo isso você esquece, foque nas atitudes, porque é pelos frutos que se conhece uma árvore. De cara, exclua do seu processo seletivo aquelas de eterna cara amarrada, as que destratam o frentista – que às vezes mora no mesmo bairro que ela – só porque se encontra aboletada no seu carro. Fique apenas com as educadas no primeiro momento. Despreze até a educação formal, dura e forçada. Falo daquele encanto fluido, o sorriso verdadeiro, a gentileza natural. Pessoas normais e bacanas, fluem, não forçam, não dissimulam. Cometem gafes e sabem rir de si mesmas, não parecem bonecos sentados no restaurante. Nada como um bom papo.
Tente discernir e escolher um ser humano integral. E o que seria um ser humano assim? Não há mistério, esse lance de mulher misteriosa fica bem em romance barato. A integralidade comporta, comporta não, só existe com matizes de pintor ambicioso, com todas as cores. Existe da alegria e da tristeza, existe a ousadia, os erros – alguns ostentados e outros reprimidos, os medos, os contentamentos, a irresponsabilidade, a responsabilidade, a paixão pelo trabalho, pelos gatos, pelos cães, precisa existir alguma paixão e seus desdobramentos de devoção, de tempo, de olhos brilhantes. Precisa da vaidade e das camisetas velhas, da gargalhada e do sussurro. Do orgulho do passado, do medo do futuro, a integralidade depende, antes de mais nada, de uma história vivida com honra e de uma certa impetuosidade – esqueça de tentar qualificar as vivências alheias, você nem estava lá, aquele tremor de quem teme mas ainda assim enfrenta. Independe de idade, de grana, de porte, de nada. Existe sozinha, lindamente, magistralmente. A definitiva beleza de quem é de fato, para o que é necessário coragem e algum abuso.
Pessoas saudáveis sabem conversar, olham nos olhos, apertam a mão com firmeza, dizem por favor e obrigado, sabem olhar ao redor e se encantar com coisas do cotidiano. A mulher que vai te fazer feliz tem sonhos e metas, tem amigos de longa data, faz o que acha que deve, ainda que isso implique em se acabar de dançar em dia de semana, fazer sexo com você no primeiro encontro. Não se mede mulher por cama, mas se mede pelo que ela acha que significa cama. Cama tem hora, sexo é arte, precisa ser exercido bem, sem firulagens, seletivo – ainda que esse critério seja aquelas vontades que batem, irresistíveis. Circular pelo mundo oferecendo sexo para todos é meio, humm, cômico. E claro, nem pense em aceitar ao seu lado uma criatura porca o bastante para permitir que não se use camisinha. Sexo sem camisinha com desconhecidos é uma falta de higiene, de asseio, de noção sem tamanho.
Escolha uma bem resolvida, não se atenha a certos constrangimentos iniciais. Mas observe sorrisos: olhos e boca. O sorriso começa nos olhos e se estende pelo corpo, sempre priorize o bom humor. Tente enxergar dentro delas, procure as que têm um universo dentro dos olhos. São essas que vão complementar sua vida, te dar coisas e as que vão saber receber. Escolhas as que ficam encantadas com gentilezas, as que tem arroubos de meninas quando ganham uma margarida roubada de canteiro – aliás, escolha as que não fazem tanta questão de ser adultas, só são. As que querem viver, não provar. As inteiras na sua beleza e no seu caráter, as que não vivem para te agradar. As centradas em si, as levemente egoístas, as que têm tesão nelas mesmas, as que se masturbam, as que reluzem. As que nunca gozaram, mas estão loucas para saber como é isso, as que sabem com precisão o que as faz gozar. Fuja das que não lêem, das que se emporcalham com perfumes enjoativos, das que comem de boca aberta, das que querem mandar em você sem um toque de carinho, das que falam demais, das que não falam também, das que acham emocionante dirigir embriagado. Das que são incapazes de ter compaixão, das que não acham nada sobre tudo. Seja mulher ou homem, fuja dos vazios internos, da vergonha da cultura, do desprezo pelas artes, do desinteresse pela diversidade da vida e das pessoas. Fuja!
Mas claro, se você não souber enxergar, se estiver atrás de estereótipos e bundas, vai acabar ficando com esses trapos vexatórios que abundam nesse mundo. De qualquer maneira, quem sou eu para mandar na sua vida, mal mando na minha. O que é de gosto regala a vida, mas se você aceitar um conselho de quem entende – afinal, eu sou mulher – mulheres e pessoas ocas, pretensiosas, mal humoradas, sem classe e que acham que elegante é vestir tailleur, no caso de terem bundas bacanas e bons decotes, só servem mesmo pra descarregar a natureza. Quando servem. Não sei quanto a você, mas meu tesão, felizmente pra mim, nasce no meu cérebro.
Então, já falamos bonito, podemos passar aos conselhos práticos. Escolher sua mulher é uma coisa importante. Você, quando vai comprar uma torradeira, costuma ser cauteloso, então seja também ao escolher sua mulher. A torradeira pode ser devolvida, jogada no lixo, tem garantia, tem assistência técnica e manual. Mulher, não. Mulher você adquire no escuro e não há pra quem reclamar, nem quem conserte. Muito menos quem vá devolver seu dinheiro.
Escolhendo sua mulher:
1. Primeiro passo: ela é humanóide? Quantas bundas ela tem? Uma só, razoavelmente bem conformada? Isso é bom. Ela anda que nem um pato quando está de salto? Ela aparenta ter cabelos limpos, ou claramente espremeu um pote de creme para pentear no alto da cabeça e foi pro baile? O quesito número um é esse: limpa, asseada, apresentável, sem sinais de desgaste por excesso de uso.
2. Passo dois: verificar a existência do cérebro. Cérebro é importante porque sem ele a moça vai ser inútil, diferente de uma boneca inflável apenas porque precisará ser alimentada. Então, faça um teste simples: converse com ela antes de sair rebocando pro motel. Ela sabe falar? Ela é fluente no seu próprio idioma? Quantos risinhos idiotas por minuto? Mais de dois descarta.
3. Passo três: funcionalidade. Verifique o que ela faz da vida, se já sabe se alimentar sozinha. Ela é manicure? Só aceite se estiver fazendo algum curso de estética, se tiver alguma vontade de crescer na vida. Manicure foi só exemplo. Qualquer outra ocupação. Só releve se ela já for diretora-presidente de uma multinacional, ai você pode deixar ela pretender relaxar na vida.
4. Durma com ela, do verbo dormir mesmo. Verifique flatulências, vômitos de cachaça, roncos estranhos. Uma coisa é uma mulher produzida, outra coisa é uma mulher ao natural. Olhe o sutiã e veja se não tem enchimento, a calcinha também. Verifique atrás da orelha, procure por bolinhos de sujeita, cheire os pés. Cheiro de queijo em qualquer parte do corpo não é bom.
5. Passo cinco: sonde a família. Veja se alguém está preso, se existe algum primo marginal, como anda a carcaça da mãe – porque a filha vai ficar igual em alguns anos. Pessoas equilibradas e saudáveis geram pessoas – normalmente- saudáveis. E fuja a toda velocidade se ela começar a lamentar a situação financeira da mãe, se tem vergonha de onde os pais moram. Ter vergonha de ser ou ter sido pobre é coisa de gente interesseira e dinheirista.
Feito isso, você pode ficar relativamente seguro. Mas lembre-se: nada de fazer promessas. Vá levando, vá vivendo, vá conhecendo. Todo cuidado é pouco.